Neste final de semana teremos a primeira rodada do Brasileirão. O Campeonato nacional é talvez o mais emocionante do mundo e certamente o mais imprevisível não pelo nível técnico ou tático, mas pelo número de variáveis e incertezas que rondam cada equipe.

Dificilmente mundo afora alguma equipe que não figure dentre as mais ricas ou tradicionais credencia-se como possível candidata ao título. Podemos lembrar do Leicester de Ranieri que ano passado levou a Premier League quebrando bancas de apostas mundo afora. Alguns lembrarão da mais que honesta campanha do RB Leipzig neste ano, sendo esses outsiders a exceção. Via de regra, os títulos ficam com as equipes com mais recursos à disposição.

No Brasil a máxima de que as equipes mais ricas e de maior torcida detém maior esperança de títulos nem sempre procede. Neste país continental, a história de um torneio nacional centralizado é recente. O Campeonato Brasileiro unificado data de 1971 (apesar dos Robertões, Fita Azul, etc...), nada quando comparados aos campeonatos europeus do final do século XIX.

As dimensões nacionais, a falta de transporte e a distância entre os grandes centros de outrora fortaleceu um tipo de competição que só existe no Brasil: os estaduais. Tal fenômeno criou a impressão da existência de grandes equipes localmente mas que, país afora, pouco representam. Noutras palavras, nem sempre uma equipe forte no seu Estado consegue ser competitiva fora dele.

Assim, muitas agremiações que gozavam de prestígio por conquistas regionais passaram a disputar os torneios nacionais com expectativas nada realistas de suas ufanistas torcidas.

As características acima ventiladas passam a impressão de que várias equipes poderiam disputar os torneios nacionais com condições de vencê-los, algo que na prática não se confirma, mas que movimenta, pelos estados, a imprensa, a mídia e a grande massa de torcedores/consumidores.

Ao analisarmos a série A deste ano, vemos que a região Norte não está representada, tendo o Centro Oeste apenas um integrante (Atlético GO), três nordestinos (Vitória, Sport e Bahia), cinco sulistas (Coritiba, Grêmio, Atlético PR, Chapecoense e Avaí), sendo os onze demais da região Sudeste (Atlético MG, Cruzeiro, São Paulo, Santos, Palmeiras, Corinthians e Ponte Preta, Fluminense, Botafogo, Flamengo e Vasco).

A geografia do nacional demonstra que a região mais rica do Brasil coincidentemente é aquela cujas equipes recebem maiores valores da televisão, tendo mais recursos à disposição para contratar mas como não poderia ser diferente, também tendo maiores dívidas junto ao fisco e instituições públicas. Cabe uma ressalva: como tudo neste país, o futebol permite que algumas situações sejam melhor “contornadas”.

O contrassenso está no fato dos estaduais hoje serem tomados mais como competição de pré-temporada do que efetivamente como um termômetro para o restante da temporada. Lembremos, ano passado dos quatro rebaixados à segundona, três foram campeões nos seus estados.

O fato é que a temporada 2017 começa nacionalmente neste final de semana e certamente, muitas equipes acabarão o torneio com formações diferentes daquelas desta rodada inaugural. Algumas equipes, nesse período, chegam a utilizar mais que oitenta atletas, numa clara demonstração de despreparo, falta de planejamento e atenção a compromissos com empresários.

Hoje, na primeira divisão, podemos destacar algumas equipes como as credenciadas a disputar o título do certame. O Flamengo, campeão estadual sem ter vencido um turno, tem um elenco interessante mas a falta de um treinador mais experiente que possa preservar o elenco pode pesar. O Corinthians de Carille surpreendeu a todos e, pragmaticamente, levou o paulista mas será uma equipe de placares magros, futebol nada exuberante dentro daquela característica de competitividade que o acompanha nos últimos anos. O Grêmio surge como a equipe sulista com mais possibilidades apenas graças ao peso de sua camisa enquanto em Minas Gerais nenhuma agremiação convence plenamente sua torcida.

Pelo abismo econômico, as equipes do Centro-Oeste e Nordeste não devem figurar dentre as cinco aspirantes ao título. O Atlético de Goiás tem elenco dedicado. O Sport conta com alguns nomes que podem deixar a equipe durante o certame e as equipes baianas foram ambas eliminadas pelo Paraná Clube, da segunda divisão, na Copa do Brasil.

Sobre as equipes do estado, nenhuma convence. O Coritiba apesar do título não enche os olhos dos seus seguidores e sobre seu rival, o Atlético, paira o descrédito do baixo rendimento dentro de campo, aparentando certa queda de rendimento; no entanto, uma eventual classificação na Libertadores pode alterar o estado anímico da equipe da baixada.

Acerca das equipes ainda não citadas, o Santos deve seguir apresentando novos atletas ao mercado, sem maiores pretensões. O Cruzeiro amarga uma crise interna. As equipes cariocas não apresentam futebol convincente. O São Paulo esbarra em questões internas e na falta de experiência de Ceni como treinador. Assim, surge o atual campeão, Palmeiras, dono do melhor elenco nacional e novamente com Cuca no comando como a equipe a ser batida. Sobre a Ponte, apesar da bela campanha no estadual, a equipe centenária jamais ganhou um título e não deve ocorrer agora, embora deva ficar dentre aquelas que seguirão na primeira divisão em 2018.

Acúmulos de dívidas, impostos atrasados, valores antecipados por emissoras televisivas, mudanças no elenco, a primeira janela após o estadual, a janela para a Europa, os infalíveis atrasos salariais, as cobranças físicas de facções contrárias aos comandos das agremiações, estas são algumas das várias nuances, variáveis que impedem melhor análise sobre o que o Brasileirão pode apresentar. Nesse cenário, vai que a Ponte, equipe sem tanta pressão interna, com salários em dia e reforços pontuais, vira o Leicester Brasileiro? Não.

Assim, pela imprevisibilidade, o Campeonato Brasileiro é tão emocionante. Lamentavelmente, pela falta de confiabilidade da CBF na organização e do STJD na seriedade, além de estar sempre refém da emissora que detém seus direitos (e que inexplicavelmente antecipa verbas de anos futuros) o produto “Brasileirão” pouco mercado fora do país, o que, caso devidamente explorado, poderia permitir um incremento nas rendas e investimentos das equipes.

David Formiga - Narrador Esportivo na Rádio Paraná Clube

A publicação deste colunista não reflete, necessariamente, a opinião do portal Nosso Paraná.

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